Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis (…)
Artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela
Assembleia Geral das Nações Unidas, em dezembro de 1948.

Entrada do Pronto Socorro Municipal de Belém Mário Pinot
O paciente está em estado gravíssimo. Precisa se dirigir a uma unidade de assistência médica o quanto antes. O posto do bairro está sem condições. Tenta a ambulância do SAMU. Estão em greve. O tempo agora é o inimigo da sobrevivência. Depois da dificuldade, chega a um dos pronto-socorros da capital paraense. A maratona da batalha pela vida recomeçaria em um lugar onde o caos é geral. Sem leitos, sem aparelhos, sem médicos, sem nada. De um lado, temos uma pia, como improviso, servindo de maca para que uma criança de seis anos de idade possa morrer. Do outro, uma família vinda do interior do estado, em busca de “melhor” assistência. Dolorosa ilusão. A saúde paraense é o nosso (im)paciente, e consegue, depois de uma longa espera nos lotados corredores, um raro leito na UTI do pronto-socorro. A fase é terminal. Só nos resta esperar para ver se suas condições vão melhorar ou, se ainda for possível, piorar.
Nosso estado, mais uma vez, ganha as manchetes do noticiário nacional. Massacre de Eldorado dos Carajás, caso Xinguara, assassinato de irmã Dorothy, menina presa com homens em Abaetetuba, etc. O que mais o Pará poderia servir à mídia? O colapso da saúde pública do estado não deixou ficarmos esquecidos por muito tempo. Mas não é novidade. Em 2008, a maternidade “referência” na região, a Santa Casa de Misericórdia, registrava uma mortalidade na UTI neonatal de 56%, com 113 bebês mortos de maio até o mês de junho do mesmo ano. Nem o diretor da instituição, Anselmo Bentes, resistiu, e abandonou o cargo. Depois de toda exposição do horror que vivia a Santa Casa, o governo recentemente inaugurou seu novo centro obstétrico.
Em eleições, o tema saúde sempre foi motivo de discussão e promessas. Duciomar Costa, atual prefeito de Belém, chegou a ser desafiado pelo então candidato do PMDB, José Priante, a comparecer no local do suposto novo pronto-socorro da capital, para comprovar o andamento das obras na construção dos seus 130 leitos. Como de praxe, foi uma baixaria só. E a população ficou com mais uma promessa que, para variar, até agora não foi cumprida. A governadora petista, Ana Júlia Carepa, em sua disputa eleitoral contra o tucano Almir Gabriel, tinha como marca na campanha a “mudança” e os “treze passos para o futuro”. Só esqueceu de nos avisar sobre o teor negativo da tal transformação.
Segundo dados do IBGE, numa pesquisa de 2005, referente à saúde, do total da população brasileira, apenas 18,5% contavam com a assistência médica privada. Ou seja, tinham de pagar dois planos de saúde: o SUS, através dos abusivos impostos – inclusive, os salários dos trabalhadores brasileiros nos primeiros cinco meses de 2009, foram destinados integralmente a pagar tributos –, e a assistência particular, na tentativa de uma garantia não oferecida pelo sistema público.
Agora temos uma novela em meio a esta situação. O presidente da câmara municipal, Walter Arbage, do mesmo partido do prefeito (PTB), depois de vetar anteriormente a instauração da comissão para investigar os desmandos na área da saúde, tem novamente, a decisão em suas mãos. Enquanto o parlamentar, morosamente decide pela instauração ou não da CPI, existem vários paraenses morrendo nas pias, nos corredores, nas portas de pronto-socorros, nas incapacitadas ambulâncias, tendo um direito humano violado. E tomara que, caso a CPI seja instaurada, não tenhamos como resultado uma indigesta “pizza”. Não seria “saudável” a ninguém. Mas, neste caso, precisamos correr o risco. Afinal, do jeito que está, não podemos permanecer.

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