Deus é melhor que Tom Cavalcanti

Junho 15, 2009

Deus é um cara sem memória e com muito senso de humor. Eu, como seu súdito infiel e sua cópia imperfeita, tenho memória fraca e alguma (bem pouca) verve cômica. Por isso é que eu esqueci o nome do autor que disse: a parte mais importante de qualquer texto é a primeira frase. Esqueci, mas concordei. E continuo concordando, com todas as minhas forças. Então resolvi começar esse texto falando de Deus, apesar de que este, oh!, não é um texto sobre Deus.

E por que então, raios, eu resolvi começar escrevendo sobre o Todo-poderoso? Porque essa minha atitude, fariseus, é um meio para atingir o objetivo de todo escritor que se preze: ser lido. Para tanto, o desafio maior: chamar atenção do passante pras linhas tortas que se seguem. Não se engane, querido leitor: estou tentando convecê-lo de que o que eu escrevi é importante. Estou tentando lhe convencer de que você não vai perder tempo lendo meu texto. Porque escrever nada mais é que uma tarefa de persuasão. O cara olha um quilo de texto na frente dele, lê a primeira frase, e se ela não for uma frase carcereira (ou seja: uma frase que prende), ele simplesmente vai escolher outra coisa pra fazer. Por isso eu comecei falando de Deus.

Porque Deus é um sujeito que todo mundo conhece ou julga conhecer muito bem. Deus é amor, Deus é paixão, Deus é perdão, Deus é isso e aquilo. Aí eu digo que ele tem problemas mnemônicos e gosta de uma boa piada. E o leitor fica esperando que eu explique. Eu demoro pra explicar. Mas aí já é tarde: você já está lendo o texto que eu queria que você lesse. Ratificando a informação contida na última frase do primeiro parágrafo, vamos ao que interessa.

Uma agulha no palheiro

Perdoem o lugar-comum, mas é verdade. O que a gente escreve é uma agulha no palheiro do mundo moderno abarrotado de informações. Nessa mesma página, existem dezenas de links que levam nossos leitores pra outros lugares em alguns poucos segundos. E existe um Xis no alto da tela do monitor, pra onde fatalmente irá a setinha do mouse caso nosso texto seja desinteressante. É, o leitor é cruel. Se ele não gosta, nada o fará ler até o final. Ele vira as caras, e nos deixa chupando os dedos, no limbo dos autores pouco lidos. Mas, para continuar usando aquela metáfora, há uma vantagem da agulha em relação à palha do redor: a agulha brilha. Ou melhor, pode brilhar. Por isso eu advogo: precisamos polir um estilo. Um estilo e uma linguagem próprios, para diferenciar nossa agulha da palha feia e comum, e das outras agulhas. Porque se existe muita informação e muito texto internet afora, o nosso tem que ser especial, tem que ser diferente, para que o leitor fique até o final. E para que ele volte.

Voltar, fidelizar o leitor, eis o desafio maior. Um bom escritor (um bom jornalista, que seja), nem precisa ter uma ideia genial, ou dar aquele furo de reportagem sempre, para fazer com que o leitor volte. Basta que ele tenha um jeito cativante, inovador, próprio, seu, criativo, de contar uma história, dar sua opinião. Tem muito blog por aí que não me acrescenta nada, mas eu visito diariamente só por que eu não resisto ao modo como o autor conta como foi o seu dia. Ou descreve um brinquedinho novo. Porque a graça da brincadeira está em dar e receber prazer através das palavras. É só saber trabalhar a linguagem, lapidar o discurso.

Ok, não é fácil. Pelo contrário, é dificílimo. Eu mesmo não sei se a maioria dos que começaram esse texto chegaram até aqui. Mas eu tento. Tento criar a identidade que minha linguagem deve ter. Porque, pô, se é pra escrever como máquina, que inventem um dispositivo que a gente alimente com informações e ele nos prepare um texto-padrão, bonitinho, fechadinho, com todas as arestas cortadas, pronto para o consumo, agite antes de beber. Eu adoro a industrialização. Mas odiaria o dia em que industrializassem a minha língua.

(Nota mental: cortar a palavra “industrialização” e suas variantes dos próximos textos)

Escolhendo um bom assunto

Esse sub-título ficou com um tom professoral, que vocês provavelmente perceberam e odiaram. Eu também não gostei. Mas eu vou falar agora, justamente, de como eu acho que deve ser o crivo, em que devemos nos guiar na escolha do assunto a tratar. Principalmente em blogs como esse, que tem tema-livre. Obviamente, não há fórmula pronta. E se houvesse, com certeza não seria eu o responsável por revelá-la. Ainda assim, acho que podemos pensar numa coisa: o assunto deve ser abordado de uma forma contra-hegemônica, ou seja, de um jeito que não se vê com facilidade por aí. Isso porque devemos ter aquele diferencial: ninguém vem aqui para ler o que leria nos jornais comuns. Então, por exemplo:

Se eu resolvi falar de meio ambiente, não devo repetir aquela história de que os principais problemas do planeta são o desmatamento, a ânsia pelo progresso desenfreado, a poluíção das grandes cidades, a indústria, o capitalismo etc. Isso todo mundo tá cansado de saber. Legal mesmo seria se eu lançasse uma questão diferente, um contra-ponto a essa ideia. Por exemplo, a tese contra-hegemônica de que o aquecimento global é devido a causas naturais e não à ação do homem. Porque, segundo essa tese, o aquecimento do planeta pouco (ou nada) tem a ver com os problemas da industrialização. O que joga por terra o discurso alarmista de que o homem destruirá o mundo muito em breve. É uma ideia interessante, que provavelmente renderia um texto interessante. E convidaria o leitor a repensar seus posicionamentos pré-concebidos.

Usando mais uma vez a metáfora do palheiro (última vez, juro), se nosso texto vai ser uma palha, que pelo menos a pintemos de vermelho vivo, para diferenciá-la do amarelo fosco geral.

Escrever é difícil. Ninguém nasce sabendo, e sorte daqueles que sabem estar em constante aprendizagem. Um bom assunto, um ponto de vista diferente e um estilo próprio já fazem boa parte do trabalho. E, claro, não escrever muito é fundamental, porque tudo que é demais enjoa. E é tão ruim quando o assunto acaba e o escritor fica prolongando o texto indefinidamente. Isso só irrita o leitor. E aumenta a sensação de que ele está sendo enganado. Mas se isso é feito só no penúltimo parágrafo, não tem problema. Porque o leitor vê o fim do texto e pensa: já tá acabando, não custa nada ler essas últimas linhas. E fica mesmo curioso sobre o desfecho incrível em que o autor provavelmente pensou.

Quando ele chega no último parágrafo e percebe que nada de excepcional vai acontecer, sufoca uma leve decepção. Mas que ele não se sinta enganado, e volte sempre. Que leia sempre o que este que escreve tem a dizer. Siga o exemplo do próprio Deus: um cara sem memória e com muito senso de humor, capaz de rir da própria piada em que caiu. Por fim, uma prece na língua do pê: Ó Pai, perdoai a pocreza dessa piada-pronta.