Era mais um dia tranqüilo. Eu, vestido com meu avental enquanto limpava o chão, podia vê-la claramente por detrás das orquídeas novas que tinham chegado aquela manhã. Nem o cheiro enjoativo do desinfetante poderia estragar o prazer de vê-la ali, parada: um corredor de distância. Incrível como, à luz daquela hora do dia, os olhos dela ficavam com aquele brilho amarelado… Não que pudesse vê-los claramente daquela distância, mas jamais os esqueceria.
Até que aconteceu. Ele chegou, saído sei lá de onde, com aquele cabelo ridiculamente penteado à maneira cafona de um galã de novela mexicana. Percebi que o esfregão passara a tremer em minhas mãos, enquanto tentava continuar o serviço. Respirei fundo e tentei me convencer de que o olhar apaixonado que escorria do rosto dele, enquanto caminhava para além das orquídeas, não significaria nada para ela.
No entanto, tive que parar o serviço no momento em que ele estendia para minha amada um viçoso buquê de rosas e ela o recebia com… Um sorriso no rosto! Não conseguia lembrar exatamente se era sempre daquela maneira que ela sorria, mas poderia jurar que havia algo de estranho. Teria aquele sorriso algum significado mais profundo que eu não conseguia captar? Estaria ela interessada nele, parado ali, com a expressão impaciente de um amante que anseia ser correspondido por sua amada?
Meu desejo foi o de saltar entre os dois e quebrar o esfregão na cabeça do tal Frederico Ricardo.
Os dois conversavam sobre algo. Impossível escutar o que era, mas minhas têmporas latejavam de imaginar o que seria tão interessante a ponto de arrancar dela todos aqueles sorrisos. Eu também era capaz de fazê-la rir, ah se era! Então… Aquilo podia significar que não existia nada de especial entre nós, que ela ria comigo assim como ria com qualquer outro!
Meu estômago se colou na espinha ao pensar nisso. Era o fim. O fim de tudo que havia existido entre nós estava demarcado ali, enquanto ela segurava aquelas rosas, tão vermelhas quanto o sangue que era bombeado do meu coração ferido em direção a meus punhos que quase não resistiam na vontade de socar aquele estranho.
Então, finalmente, meu coração pôde bater mais tranqüilo quando ela lhe devolveu o buquê com aquele lindo sorriso no rosto e um musical “obrigada e volte sempre”, no que ele se afastou apressado do balcão, quase derrubando as orquídeas novas, enquanto conferia o troco. Respirei fundo, enquanto voltava a esfregar o chão.
E era somente o começo do expediente na floricultura.

Publicado por seguindocurso 
