Seja através de pinturas nas cavernas ou de sinais de fumaça, a humanidade sempre utilizou símbolos para se comunicar. Impossível apreender fisicamente a complexidade do mundo, com suas montanhas, desertos, oceanos e, principalmente, pessoas, sem o auxílio dessas representações. E nesse esquema de produção, transmissão e recebimento de símbolos do processo comunicativo, o domínio e interpretação dos mesmos sempre tiveram o poder de causar mudanças. Às vezes mudanças simples, como usar uma ponta de flecha diferente para caçar determinado animal, às vezes mudanças mais profundas, que decidiram os rumos de nações.
Atualmente, além de complexos sistemas que misturam imagens sons e cores na tela de nosso computador, por exemplo, possuímos uma escrita muito desenvolvida, o que nos poupa de queimar folhas ou extrair o sangue de algum animal para transmitir mensagens. No entanto, a falta de conhecimento desse código escrito, ainda hoje, atinge boa parcela de nossa população.
14 milhões de brasileiros (cerca de 8% da população) são analfabetos (IBGE-2008), e se juntarmos a esses números os índices do analfabetismo funcional, que diz respeito àquelas pessoas que, apesar de alfabetizadas, não conseguem ler e interpretar textos simples, o percentual de pessoas com deficiências de leitura beira os 75% de nossa população.
75% da população de um país privada de ter acesso a um universo infinito de possibilidades, pois o simples fato de ser ou não capaz de interpretar os símbolos negros contidos nas pálidas páginas de um livro desencadeia diversas potencialidades. Você mesmo não poderia estar lendo isto, aqui, agora, se informando, criticando, concordando, discordando etc, se não fossemos capazes de compartilhar esse código.
Códigos esses que têm a capacidade de, ao mesmo tempo, serem objetivos, na medida em que cada sistema utiliza sempre as mesmas letras e símbolos, e subjetivos, na medida em que transpor em palavras algo muitas vezes tão pessoal quanto sentimentos e idéias nem sempre é tarefa simples. Mas a possibilidade está lá: tanto podemos mostrar o que se passa em nosso cérebro quanto ter acesso à parcela da mente que os outros nos tornam acessível através da caneta ou do teclado. Independentemente da complexidade ideológica, filosófica ou o que quer que seja de um texto, a palavra escrita é, indiscutivelmente, dotada da capacidade de nos tocar, mobilizar nossas mentes e corações para que queiramos nos manter informados, entrar em intrigas, desentendimentos, disputas e até mesmo provocar paixões.
Por isso a óbvia necessidade de que a leitura e a escrita plenas se estendam a todos, garantidas como direito que legitima a liberdade de expressão e o devido exercício da cidadania. Para que sejamos capazes de escolher de que lado ficar.
Para que todos possam ter a chance de ter sua vida mudada pela filosofia de Paulo Coelho (ou até mesmo achar que a literatura brasileira nunca produziu nada mais medíocre). Para que todos possam ter acesso aos bastidores do poder em Brasília, descritos por Gilberto Dimenstein; possam descobrir por que no ‘Mundo de Sofia’ acontecem coisas tão estranhas; ou se finalmente o ‘Elefante Basílio’ conseguirá ou não virar borboleta e, ainda, ler e reler o ‘Relatório da coisa’ para tentar entender que diabos a Clarice queria dizer com ‘Sveglia’.

Publicado por seguindocurso 
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