Canetas e talheres

Junho 25, 2009

canetasetalheres

Não, não basta apenas vocação! Um jornalista até poderia ser igual a um chef de cozinha, como Vossa Excelência Ministro Gilmar Mendes afirmou, se um erro veiculado nos meios de comunicação não mudasse totalmente a vida das pessoas. Ora, se a justificativa do ministro é que o jornalismo é tão simplório que a técnica é suficiente, o que dizer do curso de Direito? Se para nós basta saber escrever, para os advogados e juízes, decorar leis e possuir uma boa oratória seriam de bom grado.

Talvez seja até ignorância por parte dos nossos excelentíssimos ministros a desculpa sem fundamentos de que jornalismo não é ciência. Os livros e artigos estão a disposição para provar o contrário. A não ser que os pensadores da área tenham perdido seus preciosos dias fazendo pesquisas e escrevendo livros para ludibriar os comunicólogos, tal como aqueles que estão em Brasília fazem com a população.

O diploma do curso de jornalismo caiu, mas queda maior sofrerá a população brasileira, que a partir do presente momento passará a ler matérias mais sensacionalistas das que já lê, escritas por qualquer ser alfabetizado e que tirará o lugar do bom jornalista por receber uma remuneração menor.

Se já existiam muitos erros jornalísticos, o que acontecerá quando os jornalistas forem a minoria nas redações? Quantas pessoas serão presas injustamente? Quantas vidas serão atingidas em função de erros escritos por pessoas sem a graduação que antes era necessária?

E o ministério ainda se vale da desculpa da liberdade de expressão. Quem é radicalmente contra rádios comunitárias, quer falar em liberdade de expressão? Ora, não sejámos hipócritas, se queremos essa dita liberdade, que acabem com os poderosos grupos que dominam a comunicação no Brasil! Já que é óbvio que os jornais continuarão a veicular as notícias que mais lhes convêm.

Acredito que aqueles que estão em Brasília não são nem um pouco ingênuos, então qual o real motivo dessa decisão? Provavelmente seja o contrário do que dizem os oito ministros que votaram contra o aquele papel, que no dia 17/06/09 perdeu totalmente o valor para os jornalistas. Por que os membros do governo seriam a favor do diploma para aqueles que se colocam contra eles? Está aí o DIP maquiado do século XXI!


Cadê o Diploma?

Junho 25, 2009

Uma decepção. Assim se define a decisão do Supremo Tribunal Federal, que na última quarta-feira (17) derrubou por 8 votos a 1 a exigência de diploma para o exercício do jornalismo.

A manobra deixa brechas para que pessoas desqualificadas assumam o lugar daqueles que batalharam (e batalharão) por quatro árduos anos na universidade, lapidando os conhecimentos inerentes ao exercício da profissão.

Jornalismo nunca foi somente a dominação da escrita. São necessários embasamentos teóricos, práticos, críticos e (por que não?) emocionais, que apenas a vivência acadêmica pode fornecer.

A opinião que está em jogo é aquela dos patrões, e são eles que estão vencendo a partida: mais mão-de-obra, para explorar a um preço bem menor, considerando que a profissão se desqualificará com o tempo. Imagino que daqui a algum tempo, presenciaremos a explosão de cursos técnicos de jornalismo, com duração de um ano e meio.

Dizer que a decisão vai fazer com que a liberdade de expressão seja finalmente alcançada, é um álibi fajuto para quem não sabe dar um motivo plausível para a extinção da obrigatoriedade do diploma. A tal liberdade de expressão, tão almejada pela sociedade, foi alcançada apenas parcialmente após a ditadura. Ainda temos que nos submeter às elites econômicas, pois são elas que nos empregam. Não defendemos nossos próprios interesses, e na imprensa não é diferente: existem métodos de repressão (entenda-se: medo de perder o emprego). Existe o dinheiro que compra o silêncio. Existem os editores.

boca ziper

Poderíamos fantasiar que a decisão do STF tem por objetivo dar mais visibilidade aos meios alternativos de comunicação. Mas, em um país onde o governo põe abaixo as rádios comunitárias, seria ilusão pensar que a decisão foi votada pensando em ajudar os “excluídos” desta terra de gigantes como a Rede Globo.

Por isso, estamos de luto. Pode não ser a morte instantânea do jornalismo, mas salas de aula esvaziarão até que o curso nas universidades tenha fôlego novo para prender e atrair futuros profissionais da área.

luto

Para o “ilustríssimo” senhor Gilmar Mendes, fica o convite para que passe um dia em alguma redação de jornal, já que para ele, fazer jornalismo é tão fácil quanto fritar os ovos com bacon que ele come no café da manhã (se é que é ele quem faz!).

Quer liberdade de expressão? Levante do sofá, vá às ruas e grite palavras de desordem. Leia bastante para fundamentar suas idéias. Mas não pense que se for um jornalista, você será ouvido. Pode ser que você tenha seu jornal, mas para isso, precisará se submeter a muitos patrões e seus diversos interesses. Mas, se pegar em armas anda tão complicado e a sua inércia não deixa você pôr em prática seus ideais políticos, faça como a gente: crie um blog.

Isso, qualquer um pode. Ser jornalista, não.

karina